Talvez fosse mais brasileiro! Dedico ao Escrete de 1982 e ao Mestre Telê Santana.

Telê

Não sei ao certo, mas talvez fosse mais brasileiro. Pelo menos até aquela Copa do Mundo de Futebol, no ano de 1982. Estava eu com meus 23 anos e o Brasil vivia ainda o regime militar e cujo presidente era João Baptista Figueiredo, eleito pelo voto indireto. O mineiro Aureliano Chaves era o vice-presidente.  Mas o país caminhava pelo retorno da democracia, após o período ditatorial imposto pelos militares e tinha se iniciado o processo da anistia para os exilados políticos. E a campanha pelas “Diretas Já” começaria a ganhar as ruas.

Pois bem, mas estávamos no ano da Copa da Espanha e cuja seleção favorita era o Brasil, formada por grandes craques, entre os auaís Zico, Cerezzo e Falcão. Bem, mas o time completo lembro-me até hoje, como se decora uma letra de uma música antiga. Tirando as seleções de 70 e 82, não saberia dizer de cor hoje a escalação de nenhuma outra seleção brasileira, muito menos a do mundial de 2010. A de 82 tinha Waldir Perez, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior. Toninho Cerezzo, Falcão e Zico. Sócrates, Serginho Chulapa e Éder Aleixo. E reservas como Batista, Paulo Isidoro e tantos outros. No comando técnico, o gênio, saudoso mineiro Telê Santana, das bandas de Itabirito. Talvez ele tenha cometido dois erros: não levar o goleiro Raul e o atacante Reinaldo. E uma contusão à véspera do Mundial tiraria da disputa o grande centro avante Careca, o que provocou a titularidade de Serginho.

Mas eu era sim, mais brasileiro. E como todo povo deste país, naquele ano, havia um amor especial pela seleção de Telê Santana. De vibração mesmo, como foi na estréia, quando fizemos 2 a 1 na Rússia, de virada, após um frango do goleiro Waldir Perez. Éder marcou o gol da vitória, aliás, um golaço. Depois, 4 a 1 na Escócia e 4 a 0 na Nova Zelândia. As outras fases eram em triangular e o Brasil teve como adversários a Argentina e a Itália, de Paulo Rossi, que viria a ser o nosso carrasco. Primeiro jogo da 2ª Fase e fizemos 3 a 1 na Argentina de Maradona. Jogamos muito e os gols foram marcados por Zico, Serginho e Júnior. E era chegado o “Dia D”, quando pegaríamos a Itália, no inesquecível estádio do Sarriá. O empate nos bastava naquele dia 5 de julho.

Morava em Belo Horizonte e fui assistir ao jogo na casa de umas amigas, ali no Bairro Floresta. Dinéia, Mara e Fia, entre outros colegas. Tudo parecia conspirar a nosso favor, entre as cervejas, vodka e boa música, saboreados antes do pontapé inicial. Mas fui justamente o oposto tão logo o juiz apitou pelo início da partida. 5 minutos e eles fazem um a zero. Logo ele, Paulo Rossi, que acabara de deixar a prisão por participar de um esquema criminoso na combinação de resultados pelo Campeonato Italiano. E aquele dia parecia ter asas no par de chuteiras. Empate com gol do grande e saudoso Dr. Sócrates, e minutos depois mais um de Paulo Rossi. Até que, aos 22 do segundo tempo, um golaço de Falcão após um corta luz sensacional de Cerezzo. Parecia que a fatura estaria liquidada, mas o carrasco fez mais um, sete minutos depois. 3 a 2 para a Azurra. E o Dino Zoff ainda faria uma defesa espetacular aos 44 minutos, após uma falta cobrada por Éder e uma cabeçada do zagueiro Oscar. O goleiro da esquadra italiana pegou a bola em cima da linha de gol. Era o final de uma seleção tão brilhante e talvez uma das maiores tragédias ocorridas em um mundial de futebol, onde o grande favorito saia da competição.

Eu e todos os milhões de brasileiros atônitos. Sem ação, exauridos, abatidos. Lembro-me de ter saído do apartamento das amigas sem rumo, com uma garrafa de vodka nas mãos. Não queria estar ali. Era como se tivesse perdido o amor da minha vida naquele início de noite. “Estava mais angustiado do que um goleiro na hora do gol”, como escrevera Belchior. Parecia pesadelo e acabado o sonho de ser tetra. Foram dias, talvez meses, de fossa. Até mais do que quando o glorioso Clube Atlético Mineiro perdeu as finas dos brasileiros de 1977 e 1980, para São Paulo e Flamengo, respectivamente. O chão de terra firme parecia ter se transformado em areia. Outros mundiais vieram, como este que começa esta semana, mas nenhum como aquele de 1982. Mesmo vencendo em 94 e 2002, meu tesão pela “Canarinho” se foi, acabou. Não há mais glamour e nem aquele belo futebol, ofensivo, de técnica.

O que ficou, eu guardo, e o Mestre Telê Santana nos deixou um grande legado, de que futebol tem de se jogar com arte. Tentaram lhe marcar como um técnico perdedor, mas ele provou o contrário e tão logo assumiu o São Paulo, teve sua tese defendida com resultados, tornando-se campeão Brasileiro, da Libertadores e duas vezes campeão do Mundo com o tricolor paulista. A ele e aos craques de 1982, minha terna gratidão.

Seleção de 82Em pé, da esquerda para a direita: Waldir Perez, Leandro, Oscar, Falcão, Luizinho e Júnior. Agachados, na mesma ordem: Massagista Nocaute Jack, Sócrates, Cerezzo, Serginho, Zico e Éder

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: